quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Seus olhos me refletiam.


Ela era uma pessoa boa. Boa mesmo, do tipo que só conseguiria te fazer algum mal se fosse através de tua própria consciência, pesada, diante de tanta boa intenção. E eu, poxa, só sei mentir... às vezes cogito que seja apenas um problema de poesia: “Sabemos pouco demais e aprendemos mal demais. Assim, somos obrigados a mentir”, foi o que disse um filósofo/profeta a respeito dos poetas. Que seja, será que eu tenho alguma culpa pela bondade dos outros?

Auto-justificativas à parte, o fato é que ela acreditava demais nas minhas dores e mazelas. A ponto de deixar-me constrangido de ser eu mesmo. Me alimentava, escrevia belas palavras, jurava me achar bonito e até me permitia, de bom grado, ser insuportavelmente chato e pedante. Em troca, apenas uns versinhos de “pé quebrado”, algumas cantadas ridiculamente cafonas, beijos aquecidos no microondas (passava semanas encontrando-a sem tocar seus lábios) e abraços. Ah! Dos abraços ela fazia questão... isso porque, certa vez – após ter confessado, mirando o chão, vergonha em me pedir abraços – não resisti em prometer abraçá-la forte sempre que a encontrasse. Era um doce, enfim; sua ingenuidade me encantava. E talvez meu descaso também a encantasse.

Não me sentia culpado por nada, no entanto. Afinal não agia com falsidade, eu só tinha lhe prometido os amplexos (e nunca fazê-la de idiota: isso, sim, ela chegara a pedir), outra coisa não demonstrava esperar de mim. O problema era todo esse: ela era tão boa que me deixava livre de sentimentos de culpa... e sem culpas, sabe lá Deus onde somos capazes de chegar. Mas, até então, isto nunca tinha se apresentado como problema; eu prosseguia com minha cara de tédio e ela com seus belos e incrivelmente redondos olhos, na expectativa de qualquer mudança em minha expressão.

Demorou um bom tempo, mas essa posição de “tirano enrustido”, de usurpador da bondade alheia começou a me tirar o sono. Já não sentia o menor orgulho pela conquista, nem vaidade alguma pelos carinhos e palavras que ela usava para me acalentar. Em um momento de fraqueza e bebedeira, tudo isso me fez chorar em seu colo, sob seu cafuné cuidadoso, como chora uma criança; e ela sequer perguntou o motivo, apenas julgou entender que “deveria ser saudade”.
Não me julguem, nunca fiz mal a ninguém. Minha vida sempre foi baseada em aceitação. Sempre subjuguei-me ao acaso, aos caprichos femininos e às vontades e necessidades de quem pensa maior que eu. Ora, que novidade não foi ter alguém ao sabor de minhas inconstâncias? Que prazer não me foi poder, assim como o mundo, girar em meu próprio eixo?!

Chamei-a para um encontro, secreto e às escondidas, para tentar convencê-la que eu não valia nem metade de seu prezar. Fui caprichoso, por uma tardia redenção. Levei velas, seu vinho e cigarro diletos, escrevi versos de um sincero pesar... escolhi o lugar mais alto e bonito que o meu motor em frangalhos poderia chegar:

- Linda... - falei, meio constipado, ao terminar de servir os copos e brindar “à noite”.

- Pode falar. - disse ela prontamente. Com uns olhos que (me parecia) brilhavam de emoção contida.

Virei meu copo, que ainda estava cheio, e respirei fundo enquanto tentava pensar no que falar:

- Eu.. eu queria...

- Ooh! Você é uma gracinha! Parece uma criança tímida! - interrompeu-me, enquanto me beijava os olhos e toda a face.

Enterneci de carinho, embriaguei-me de coragem e disse sôfrego, de supetão:

- Não te mereço. É isso! Sempre te iludi com gestos e palavras falsos. Sempre ri da tua prontidão e me fartei de tua bondade... Pronto, falei.

Ela se manteve serena. Seus olhos grandes, que sempre me pareceram castos, arregalaram-se-me frios e impassíveis. Pensei ver, no curvar de seus lábios, uma navalha:

- Rô... - roquejou ela em um sorriso contido – sinceramente, acredita mesmo que alguém possa ser tão idiota?

Atordoei. Os copos estavam vazios, entornei a garrafa. Apalpei seus cigarros e carburei um na chama de uma vela. Meus pensamentos já não seguiam uma ordem lógica e o vinho corria meu sangue com voracidade.

- É sério, meu lindo, você sempre foi um doce de pessoa para quem julgava me desprezar...

- Doce de pessoa? - repliquei, vacilante – Idiota.... ?

- Pára! - ela gritou de forma brusca, com uma feição indignada – Agüentei o que agüentei, seu idiota, pra recuperar seu amor próprio! Porque não aceitava ter me apaixonado por um perdedor, por um covarde!

Neste momento eu já tinha entornado o restante da garrafa em um só gole. Me encharcava um misto de ódio, decepção e orgulho ferido quando agarrei em duas mãos o seu pescoço delgado. Hesitei acovardado, mas entre seus lábios e seus olhos – que refletiam a Lua inteira – transparecia uma expressão bizarra de satisfação, de dever cumprido... E não fui capaz de, na noite de minha redenção, decepcioná-la acabando novamente com suas expectativas.

Acordei no primeiro Sol com minhas mãos ainda crispadas no sustento de sua cabeça. Seu olhar, umedecido pelo orvalho, já não refletia a Lua, mas sim o meu rosto. Sua boca, já sem cor, bocejava um hálito doce, de vitória.

5 comentários grátis!:

  1. Caralho, até q enfim ler algo teu...Mas de que adianta se nem sei o q dizer?? to meio confusa esses dias...
    ahhhh, tá tudo tão lindo e tão feio.

    quando eu tiver alguma opinião mais clara volto aqui

    beeejo

    ResponderExcluir
  2. teus textos sempre me dão vontade de fazer filme/cinema.

    ResponderExcluir
  3. Gostei, muito bom
    a Tacio te é uma boa inspiração heim
    continue assim pequeno gafanhoto

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  5. Até romântico isso, Tácio..
    Algo primoroso, vindo de ti!
    Se eu tivesse sentimentos, teria amado o texto.

    Beijos e continue assim, sem perder fé nas pessoas que têm fé em você.. =]

    ResponderExcluir