Uma tarefinha da Tia Elisângela de muitos anos atrás, só pra atualizar mesmo:
Na primeira semana tudo era bom, a casa ainda estava em ordem, tudo em seu lugar exato, do jeito que você deixou ao partir: os livros na estante do escritório, os móveis impecáveis na sala, minhas meias, que você persistia em por na segunda gaveta do guarda-roupas ,dobradas e religiosamente separadas por cor. As manhãs ainda eram de sol, os raios iluminavam cada canto da casa. Os jornais que leio ainda estavam embaixo da escada, em fileiras. A geladeira cheia de comida. No quarto, os lençóis ainda limpos, seu cheiro azul no ar. Era bom chegar em casa tarde , me jogar no sofá cinza da sala e mergulhar num sono tranqüilo, sem apelos, sem conversas e manhas de mulher. Era bom acordar de manhã depois do despertador e não ter ninguém me chamando da cozinha junto com o cheiro forte do café. Deixava a barba por fazer sem ouvir protestos, era o soberano, e sentia a liberdade. Estava tudo bem, tudo em ordem...
No final do mês nada é bom, a casa está escura, como se o sol se recusasse a entrar. A comida da geladeira estragou e não consigo usar aquelas panelas que para você não tinham segredos. Os jornais espalhados no chão, os livros desordenados em toda parte, as teias de aranha começam a aparecer, juntamente com a poeira. No quarto, a cama bagunçada, os lençóis sujos, com o cheiro forte de suor acumulado dos dias mal dormidos. Chego em casa alta noite e o sofá fere minhas costas, me agride, zomba de mim com risadas silenciosas, o silêncio da casa enlouquece, e vejo as horas voando na espera de qualquer apelo, qualquer suspiro de mulher. Acordo de manhã antes do despertador e fico esperando no colchão duro pelo seu chamado junto com o cheiro forte do café. E percebo que ele não chega e nunca vai chegar.Minha barba obscena cresce, e anseio por qualquer protesto ao pé do ouvido. Vagueio moribundo entre objetos sem cor, e vejo que a liberdade tem o seu nome. E nada é bom, nada está em ordem.
23/04/2003
Baseado no conto Apelo de Dalton Trevisan
acho q já tinha lido esse teu texto no fotolog...salvo algumas modificações q pareces ter feito.
ResponderExcluireu sei, no fundo vcs sabem q viver sem uma mulher não dá certo, chorem a ausencia delas...
hauahuahauah
tah lindo!
beeeejo
ai tia elisangela!
ResponderExcluirQue familiar, essa tarefinha...
ResponderExcluirÔ meus tempos de mocidade.
nao queria repetir, mas, ai tia elisângela!
ResponderExcluirmuito bom esse texto, náo se fazem mais professoras inspiradoras como as de antigamente...