domingo, 4 de janeiro de 2009

Uma tarefinha da Tia Elisângela de muitos anos atrás, só pra atualizar mesmo:


Na primeira semana tudo era bom, a casa ainda estava em ordem, tudo em seu lugar exato, do jeito que você deixou ao partir: os livros na estante do escritório, os móveis impecáveis na sala, minhas meias, que você persistia em por na segunda gaveta do guarda-roupas ,dobradas e religiosamente separadas por cor. As manhãs ainda eram de sol, os raios iluminavam cada canto da casa. Os jornais que leio ainda estavam embaixo da escada, em fileiras. A geladeira cheia de comida. No quarto, os lençóis ainda limpos, seu cheiro azul no ar. Era bom chegar em casa tarde , me jogar no sofá cinza da sala e mergulhar num sono tranqüilo, sem apelos, sem conversas e manhas de mulher. Era bom acordar de manhã depois do despertador e não ter ninguém me chamando da cozinha junto com o cheiro forte do café. Deixava a barba por fazer sem ouvir protestos, era o soberano, e sentia a liberdade. Estava tudo bem, tudo em ordem...
No final do mês nada é bom, a casa está escura, como se o sol se recusasse a entrar. A comida da geladeira estragou e não consigo usar aquelas panelas que para você não tinham segredos. Os jornais espalhados no chão, os livros desordenados em toda parte, as teias de aranha começam a aparecer, juntamente com a poeira. No quarto, a cama bagunçada, os lençóis sujos, com o cheiro forte de suor acumulado dos dias mal dormidos. Chego em casa alta noite e o sofá fere minhas costas, me agride, zomba de mim com risadas silenciosas, o silêncio da casa enlouquece, e vejo as horas voando na espera de qualquer apelo, qualquer suspiro de mulher. Acordo de manhã antes do despertador e fico esperando no colchão duro pelo seu chamado junto com o cheiro forte do café. E percebo que ele não chega e nunca vai chegar.Minha barba obscena cresce, e anseio por qualquer protesto ao pé do ouvido. Vagueio moribundo entre objetos sem cor, e vejo que a liberdade tem o seu nome. E nada é bom, nada está em ordem.

23/04/2003
Baseado no conto Apelo de Dalton Trevisan

4 comentários grátis!:

  1. acho q já tinha lido esse teu texto no fotolog...salvo algumas modificações q pareces ter feito.

    eu sei, no fundo vcs sabem q viver sem uma mulher não dá certo, chorem a ausencia delas...
    hauahuahauah

    tah lindo!

    beeeejo

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  2. Que familiar, essa tarefinha...

    Ô meus tempos de mocidade.

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  3. nao queria repetir, mas, ai tia elisângela!

    muito bom esse texto, náo se fazem mais professoras inspiradoras como as de antigamente...

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