segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Malaquias, melhor tu não farias - mais um texto da série a série 'títulos foscos, rimas toscas'.

Malaquias se aproximou da porta de casa e, entre a hesitação e o impulso, empurrou-a. A partir de então a gravidade se encarregou de dar sequência à ação; ele nunca tinha percebido quão desproporcional e sinuosa era a sucessão de degraus à sua frente. Eram degraus? Tanto fazia, Malaquias escalava-os como se fossem verdadeiros canyons; a cabeça pesava como uma âncora amarrada ao pescoço e o lançava para frente, para baixo, fazendo os pés trôpegos sapatearem no limite estreito entre equilíbrio e queda.

Os olhos áridos tateavam o escuro, as mãos: a consciência. Malaquias se sentia um desgraçado e arrependia-se, impotente, de cada passo e auto-conivência que o guiaram até ali. Até a porta do inferno, onde Cérberus, Caronte, Hades e outros mil demônios interiores digladiavam-se violentamente, em sua cabeça e coração. Os fluídos desta batalha brotavam de seus poros em forma de suor frio. Gozado - cismou -, como podem sangue e lava converterem em um frio suor? "É aquela vadia...".

Sem saber ao certo se descera as escadas ou se elas que o tinham subido, os degraus cessaram. Durante o conturbado percurso o rapaz havia se desvencilhado das roupas, ao passo que agora só lhe restavam as meias e uma ceroula ridícula... "aquela maldita vadia!". Parou por um instante no que deveria ser a entrada de seu quarto-e-sala tentando aprimorar a percepção. Já era possível sentir a fedentina característica do ambiente, tatear com os pés as bitucas e toda qualidade de entulhos que ocupavam o chão e delinear precariamente o contorno das paredes e dos obstáculos maiores. Ajoelhou-se e apalpou o chão, em busca de cigarros, com a atenção e o carinho que não dispensaria ao corpo de uma donzela. Achou. Carburou. Tal foi a segurança com que se levantou e, sem tropeçar, chegou ao banheiro, que se alguém de fora pudesse ver certamente diria que a batalha estava ganha.

(...)

O barulho inspirador da descarga era a garantia de que pelo menos metade dos demônios interiores foram expurgados no sanitário podre. Seguiu - desta vez com uma expressão mais plácida cravada no rosto - para o colchonete que lhe servia de cama. Inebriado, apagou o resto de cigarro em uma das têmporas. Deslizou a mão direita na borda esquerda de seu leito, sabendo o que buscava como nunca soubera antes. (...) E foi num espasmo de soluço que Malaquias espetou o próprio coração. Certeiro e irremediável. Um naco de carne pronto para ser servido cru. E foi com um brilho de contemplação nos olhos que viu como era belo aquele sangue exorcizante, rolando caudaloso e quente pela pele de seu peito frio. Deste brilho doentio só era possível extrair uma certeza, ainda que vã, um esboço de resposta. "Aquela vadia".

4 comentários grátis!:

  1. acho bonito pessoas cagando, fazendo simplesmente o que tem que fazer. devassas sempre deixam sequelas não importa o sexo.

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  2. "Rodriguianos não sabem o que estão perdendo"

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  3. ta bom tacinho prometo não maltratar tanto seu pobre coração..agora pare de se descrever em personagens auto destrutivos! ou não, continue.

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  4. O Tácio me emociona. Não que isso seja um tarefa difícil, mas ele faz, e pronto.

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