Malaquias se aproximou da porta de casa e, entre a hesitação e o impulso, empurrou-a. A partir de então a gravidade se encarregou de dar sequência à ação; ele nunca tinha percebido quão desproporcional e sinuosa era a sucessão de degraus à sua frente. Eram degraus? Tanto fazia, Malaquias escalava-os como se fossem verdadeiros canyons; a cabeça pesava como uma âncora amarrada ao pescoço e o lançava para frente, para baixo, fazendo os pés trôpegos sapatearem no limite estreito entre equilíbrio e queda.
Os olhos áridos tateavam o escuro, as mãos: a consciência. Malaquias se sentia um desgraçado e arrependia-se, impotente, de cada passo e auto-conivência que o guiaram até ali. Até a porta do inferno, onde Cérberus, Caronte, Hades e outros mil demônios interiores digladiavam-se violentamente, em sua cabeça e coração. Os fluídos desta batalha brotavam de seus poros em forma de suor frio. Gozado - cismou -, como podem sangue e lava converterem em um frio suor? "É aquela vadia...".
Sem saber ao certo se descera as escadas ou se elas que o tinham subido, os degraus cessaram. Durante o conturbado percurso o rapaz havia se desvencilhado das roupas, ao passo que agora só lhe restavam as meias e uma ceroula ridícula... "aquela maldita vadia!". Parou por um instante no que deveria ser a entrada de seu quarto-e-sala tentando aprimorar a percepção. Já era possível sentir a fedentina característica do ambiente, tatear com os pés as bitucas e toda qualidade de entulhos que ocupavam o chão e delinear precariamente o contorno das paredes e dos obstáculos maiores. Ajoelhou-se e apalpou o chão, em busca de cigarros, com a atenção e o carinho que não dispensaria ao corpo de uma donzela. Achou. Carburou. Tal foi a segurança com que se levantou e, sem tropeçar, chegou ao banheiro, que se alguém de fora pudesse ver certamente diria que a batalha estava ganha.
(...)
O barulho inspirador da descarga era a garantia de que pelo menos metade dos demônios interiores foram expurgados no sanitário podre. Seguiu - desta vez com uma expressão mais plácida cravada no rosto - para o colchonete que lhe servia de cama. Inebriado, apagou o resto de cigarro em uma das têmporas. Deslizou a mão direita na borda esquerda de seu leito, sabendo o que buscava como nunca soubera antes. (...) E foi num espasmo de soluço que Malaquias espetou o próprio coração. Certeiro e irremediável. Um naco de carne pronto para ser servido cru. E foi com um brilho de contemplação nos olhos que viu como era belo aquele sangue exorcizante, rolando caudaloso e quente pela pele de seu peito frio. Deste brilho doentio só era possível extrair uma certeza, ainda que vã, um esboço de resposta. "Aquela vadia".
acho bonito pessoas cagando, fazendo simplesmente o que tem que fazer. devassas sempre deixam sequelas não importa o sexo.
ResponderExcluir"Rodriguianos não sabem o que estão perdendo"
ResponderExcluirta bom tacinho prometo não maltratar tanto seu pobre coração..agora pare de se descrever em personagens auto destrutivos! ou não, continue.
ResponderExcluirO Tácio me emociona. Não que isso seja um tarefa difícil, mas ele faz, e pronto.
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