Espreito um gátu prêtu daqui, da minha rede que dá para a janela, e ligando a prosa com a epopéia (quase uma prosopopéia) descubro que foi esse gátu dos inférnu que corrompeu a privacidade do meu lixo noite passada.
Quando criança, me ensinaram a não gostar de gatos. Disseram-me que eles eram traiçoeiros e que seus pêlos ainda me matariam de alergia. Hoje sou simpático, chamo de “xânin” e até faço carinho. Fui injusto. Nesse mundo cão, os bichanos só me parecem sinceros e bem resolvidos.
Pois eu, aqui nessa rede, fico tentando me convencer de que só não conquisto o mundo por pura preguiça; e que não ando de carro porque gosto de caminhar; ou, ainda, que a humanidade só não me ofereceu uma estátua em praça pública graças à própria incapacidade de entender minhas sábias palavras...
Quiçá eu realmente acredite em mim? Sei lá, não tenho uma relação harmônica com meu umbigo... ele me acha irritantemente insistente, eu o acho ignorantemente incrédulo.
Tenho também (sou um rapaz de muitas posses,you know), um lado mais conformista que me congratula quase todo dia por poder dar asas à toda minha incoerência literária neste singelo, fabuloso, revolucionário (na atual conjuntura) e muitíssimo humilde “ZINE” (ou, agora, “blog”). E por conviver com vários gênios incompreendidos das mais diversas artes e ciências que vão até (fingir) achar de vanguarda que eu escreva sobre gatos, a privacidade corrompida de meu lixo e os 360º do meu umbigo.
Fico tentando vislumbrar se seria mais frustante tentar ser um rock star e acabar virando um cantor sindicalizado de barzinho, ou nunca tentar nada para conservar o álibi de que escondo do mundo meu potencial, entre as paredes do meu bucólico lar, por pura timidez.
Enquanto não decido se serei ou não um rock star, vou dando meus primeiros passos para me tornar um best seller (ou ninguém tinha percebido minha intenção?). É, acho que não.
texto publicado no finado-zine Paralelopípedo - #5 - 2006

gato afrodescendente - especificamente do egito
ResponderExcluirTempos bons que (quase) não voltam mais...
ResponderExcluiresse é muito bom.. tirando a piadinha infâme da ultima linha eu até esqueceria que era paralelo
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