I
criança que era, descobriu um poço
e - no fundo sem-fundo -
dois olhos piscar
afogando-se em sabe lá que visco
estavam fadados a brilhar
apenas para reparar a ingratidão do mundo
II
comovida e espirituosa, a moça
aguçou ouvidos e alma, veja só,
para ouvir o que os olhos diziam:
e era tanta água e tão pouca cor
e era tão distante e de tão pouco viço
"quatorze estrelas e uma lua", dizia
ladainha nervosa, lamento abafado
ouvia
III
pequena e leve, tinha coração de louça.
quis subir escadaria
quis descer elevador
quis carpideiras, bits, beatas, billboard
mas girava o céu ao redor do poço
a noite inteira Era em romaria
os olhinhos, desgraçados e débeis
mirando de muito abaixo do chão
fitavam, jaziam
a angústia da contemplação
IV
já girava a vida através do tempo
quando três estrelas desgarraram
e em estreito horizonte firmaram
as vigas do próprio firmamento
tão alto o céu, era fundo de poço
distante figura, tão perto oposto
de grão em grão, em conta-gotas
degrau a degrau num crescendo
nos olhos que viram não haver
amor, sequer, que não doa
nem
resignada agonia aquém
do crescer
do crescer
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*Como minha homenagem ao dia nacional dos poetas, um poema que conta a história de outros dois: "Cai no poço" e "Areia em conta-gotas", da minha amiga, "musa dos que dormem ao relento" e parceira de (ins)pirações poéticas: Ana.
Ela nada me autorizou, portanto é livre. E como inspirei o título do segundo, me senti à vontade de unir ambos poemas em uma trama só. Ave, Aninha. Salve quem vive a poesia e pouco se importa com o mais...

Poema-conto, merecia ser musicado. Evoca imagens, que é o que a poesia deve fazer. E mais que isso, sensações e lembranças de algo que nunca esteve aqui! Prova que o talento não é algo distante a ser buscado. É algo a ser reconhecido aqui na esquina. Parabéns.
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ResponderExcluirRapaz, deveríamos ter vivido nos anos 70!
ResponderExcluirQtos socos no estômago não levamos hj só por querer "alguma coisa" mais inspiradora??
humrum...
ResponderExcluiros elos não deveriam exitir tacinho e assim por diante os desabraços e desapegos. poderia dizer alguma coisa mas já não há e talvez nunca tenha existido sentimento que você não saiba ou soubesse ou presuma..
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